terça-feira, 4 de novembro de 2008

Agenda cultural e tal


"(...) o risco de se avaliar os outros à pressa pode ser fatal. (...) todo aquele sofrimento poderia ter sido evitado se as pessoas nos merecessem o respeito que nos inspiram os livros, bons livros não se lêem à pressa."
Rita Ferro in "não me contes o fim"


Desta vez já escreveste bem Ritinha!

Também não contava que só escrevesses coisas que me irritassem ... mas esta merece mesmo alguma distinção, pois ainda ontem este foi assunto de cházinho.


Nos dias que correm é cada vez mais fácil catalogar as pessoas rápidamente, colocar-lhes um rótulo do tipo "para assuntos de música"; "para discutir futebol"; "para discutir política" ... "para dar umas cambalhotas" .. enfim ...

É verdade que a fútil tendência de catalogar pessoas por estilo de indumentária, do tipo "o dread"; "o freak"; "a gótica"; ... e aquela classe tão sobejamente falada dos "betos", está e estará por cá para durar, pois o que teriam os adolescentes para falar??? É que sem fumar uns charros ou apanhar umas broas, já não se aprende que é bom falar de nós mesmos e dar-mo-nos a conhecer uns aos outros com os nossos doces e os nossos azedos.

Mas, passada essa atribulada faixa etária, noto que se vão adicionando uns quantos critérios de selecção para catalogar as pessoas, critérios esses que vão além das t-shirts "La Puta Madre", dos relógios "Fossil" e das malas "Guess" ... por esta altura, em que o Cartão Jovem já foi passado a outro estafeta mais tenro, começo a reparar que as prateleiras se arrumam por (f)utilidade. Passa-se a organizar as estantes conforme a utilidade que criatura X e criatura Y têm de melhor: "A - viagens"; "B - música"; "C - livros"; ... "Y - pintura"; "Z - cinema".

Não foi por acaso que exemplifiquei "rótulos culturais"! É que o que está mais in nesta era pós-quarto de século, parece ser a cultura de cada criatura. E assim vamos agendando os nossos dias conforme as disposições matinais: "Hoje não estou para conversas políticas, vou telefonar ao XPTO pois descobri aquela banda da Arábia Saudita que aposto que ele nunca ouviu sequer falar".

Mas será que não há mais pessoas, para além de mim e da excelente companhia de chá de ontem, que percebam que por muito que sejamos culturalmente exuberantes, estamos cada vez mais fechados nas nossas conchas???!!!

Hoje em dia é demasiado lamechas e desinteressante falar de emoções, de introspecções ... sei lá, parece estar demodé ser como um livro aberto, em que a cada página contamos um pouco mais de nós ... e não um pouco do filme francês que fomos ver ontem com aquele jeitoso que veste Prada e que até é engenheiro e tal ...

Felizmente, ainda consigo espreitar um pouco para fora da minha concha a cada vez que estou por um período mais longo à conversa com aqueles que sabem quem são, mas percebo que a tendência aponta para que isso se torne cada vez mais difícil, uma vez que somos criaturas de hábitos ... e eu não fujo à regra: estou a ficar habituada a absorver cultura e futilidade para dentro da concha, mas a desabituar-me de sair dela.


Pérola


2 comentários:

Henry Michkin disse...

subscrevo INTEIRAMENTE minha querida. és das pessoas mais equilibradas e maduras que tenho o prazer de conhecer :) Mesmo das situações complicadas aproveitas o máximo para aprenderes com elas, e quem és hoje e a forma como percebes o que te rodeia é prova disso mesmo. Adoro-te amiga**

LaNoia disse...

Gostei muito... O que me faz pensar... que pessoa serei eu?

Beijo.